A explosão das seitas marginais do Protestantismo | Primeira Igreja Presbiteriana de Porto velho

A explosão das seitas marginais do Protestantismo

Publicado em: 02/02/2013 21:34:49

Desde a Reforma do século XVI, muitos movimentos têm surgido em redor do mundo. Há, por parte dos cristãos, várias atitudes em relação a isso. Mas, uma dessas atitudes é a que vemos no texto de Atos 5.33-39, a atitude de Gamaliel: “...dai de mão a estes homens, deixai-os...” (v.38). Analisemos rapidamente o texto de Atos. Os novos crentes estavam sendo perseguidos e ameaçados de morte. Levanta-se Gamaliel e faz alusão dos dois líderes de religiões ou seitas daqueles dias. Haviam juntado grande número de seguidores, porém, quando morreram, os grupos desapareceram. Depois desta referência ele faz uma recomendação aos perseguidores acerca da Igreja Cristã: “se esta obra vem de homens perecerá; mas, se é de Deus, não podereis destruí-los...”.


Ao olharmos ao nosso redor e repararmos o crescimento vertiginoso das seitas em nossos dias, uma grande questão ficará sobre as nossas cabeças: “Será que o mesmo raciocínio de Gamaliel poderia ser aplicado às seitas atuais?” Obviamente que não! A própria Bíblia nos alerta de que “...haverá tempos em que não suportarão a sã doutrina...” (2Tm.4.3,4). Isto foi dito pelo apóstolo Paulo que, outrora, possivelmente, fizera parte do grupo que queria apedrejar os cristãos.
Se alguém possui o mesmo raciocínio de Gamaliel em nossos dias e não procura analisar os ensinamentos das seitas sob o padrão de nossa fé – a Bíblia, será tido como um ignorante em assuntos relativos à fé cristã. A fé evangélica pode e deve ser estudada, examinada, etc. Isto irá gerar o que chamamos crescimento espiritual. John Stott deu um título muito sugestivo a um de seus livros: “Crer é também pensar”.

Judas, em sua carta, versículo três, exorta “...a batalhardes diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”, pois nesta batalha não há lugar para alienação.

HISTÓRICO
Nesta parte do artigo iremos analisar historicamente a maneira que surgiram os vários grupos que constituem as seitas marginais do protestantismo nos nossos dias.

Seitas Proféticas
Seitas proféticas são aquelas seitas cujos líderes se acham investidos de uma “missão” e precisam proclamá-la, por acreditarem que o próprio Deus os comissionou para isso. Geralmente se baseiam em um sonho, uma revelação ou em uma interpretação descontextualizada das Escrituras Sagradas.

Ao longo da história do cristianismo encontramos exemplos de homens que, movidos por um sentimento puramente humano, tentam estabelecer novos preceitos que se chocam com a Palavra de Deus. Exemplo disso pode ser visto em Márciom[1], no ano 144 e, mais tarde, Ário[2], dentre outros.

Geralmente as seitas surgiam em um contexto de insatisfação com a religião dominante. Muitas dessas seitas proféticas, como por exemplo, Adventistas, Mormonismo, Testemunhas de Jeová, surgiram no final do século XIX, num contexto de grande desenvolvimento teológico, cultural, científico, etc. A maioria dessas seitas tinha uma perspectiva negativa da situação da humanidade e, em muitas delas, davam-se datas para a volta de Cristo e a destruição da humanidade. Já outros grupos surgiram em um contexto de guerra e pós-guerra, como a 1ª e a 2ª Guerras Mundial, tanto na Europa como nos Estados Unidos.

Com o fim da guerra, cresceu o interesse pela religião, principalmente pelas religiões orientais. Era o movimento hippie que surgia pregando a paz e o amor. Foi nessa época que surgiu a seita “Meninos de Deus”, apregoando uma revolução para Jesus.

No Brasil, vários movimentos encontraram boa acolhida, pelo caráter sincretista do próprio povo brasileiro. Muitos grupos usaram as próprias religiões estabelecidas (como é o caso da Congregação Cristã no Brasil que começaram seus trabalhos graças a uma cisão da Igreja Presbiteriana do Brás)[3]. Mas, veremos no decorrer do artigo, que as seitas que tiveram mais êxito entre o povo brasileiro são as de cunho pentecostal e neopentecostal.

Seitas Neopentecostais
Apesar das seitas proféticas terem, em algumas delas, aspectos pentecostais, é diferenciado do movimento pentecostal como veremos adiante. Iremos abordar o movimento pentecostal mais demoradamente por uma questão de prioridade no que diz respeito ao objetivo do artigoo, pois o mesmo não poderia abordar todos os movimentos religiosos, sendo, portanto, este movimento de maior expressão em nosso contexto brasileiro.

O neopentecostalismo tem suas raízes no pentecostalismo que, por sua vez, é devedor ao inglês John Wesley e seu movimento de santificação. Wesley estabeleceu uma distinção entre os crentes comuns e os santificados, ou seja, aqueles que foram batizados pelo Espírito Santo e aqueles que não foram.

Passaremos a abordar o surgimento do movimento pentecostal que, posteriormente, deu origem ao neopentecostalismo.

ESTADOS UNIDOS – (1906) Em Topeka, Kansas, na escola bíblica dirigida por Charles Parham, foi reconhecido o Dom de línguas como sinal de identificação do batismo do Espírito Santo. Dali se espalhou pelos Estados Unidos. O movimento pentecostal em Los Angeles teve início num velho templo metodista, em Azusa Street. Essa missão – Azusa Street Mission – pode ser considerada como o ponto de partida do movimento pentecostal mundial. O próprio Emílio Conde, que traçou as origens das Assembléias de Deus no Brasil, considerava o avivamento espiritual ocorrido em Azusa Street como o ponto de partida do movimento pentecostal no Brasil.

EUROPA – Expandiu-se pela Finlândia, Noruega, Suécia, Alemanha, Suíça, Grã-Bretanha, a partir de uma visita de B. Barrat, pregador metodista, aos Estados Unidos, para angariar fundos. Durante a viagem, escreveu cartas à Noruega, narrando sobre o avivamento que havia nos Estados Unidos. Quando voltou, foram realizadas grandes reuniões em Oslo (Noruega). A partir daí, se espalha por vários países da Europa.

BRASIL – Em muitos países da América Latina o pentecostalismo é o grupo evangélico mais importante. No Brasil, o movimento pentecostal é o mais importante, numericamente falando. O início, em 1910, das Assembléia de Deus no Pará, por Daniel Berg e Gunnar Vingren e da Congregação Cristã, por Luigi Francescon, pela mesma época, no Paraná e São Paulo, foi o ponto de partida para o movimento se espalhar para o restante do Brasil.

Os anos 60 foram decisivos para a religião. Devido à secularização e o modernismo os estudiosos apostavam na extinção da religião. Duas décadas mais tarde o que se observa é uma explosão de novas seitas. Surgem os neopentecostais, também chamado de pentecostalismo de terceira onda ou pentecostalismo autônomo (p. e., Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Comunidade Sara a Nossa Terra, Igreja Renascer em Cristo, Igreja Nacional Palavra da Fé, entre outras).

De uma maneira geral, esse neopentecostalismo enfatiza o exorcismo, cura divina, dons espirituais, continuidade da revelação divina através de líderes carismáticos, etc. Esse neopentecostalismo ganhou força no mundo religioso norte-americano nos anos 70, período em que também começou a penetrar na América Latina, provocando o surgimento de novas igrejas, seitas e denominações, assim como cisões nas principais denominações protestantes brasileiras, entre elas Metodistas, Batistas, Presbiterianas, Congregacionais, etc.

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Doutrinas
O neopentecostalismo é caracterizado como um grupo com mentalidade pentecostal, mas que se consideram adeptos de uma “renovação espiritual”.
Consideramos que existem hoje várias Igrejas com características neopentecostais, que podem ser classificadas como pentecostalismo clássico ou neopentecostalismo, depende do critério adotado pelo analista. Nós iremos considerar as Igrejas: Universal do Reino de Deus; Internacional da Graça de Deus; Comunidade Sara Nossa Terra; Renascer em Cristo e Igreja Nacional Palavra da Fé.
O movimento neopentecostal enfatiza, de uma forma geral, o exorcismo, cura divina, dons espirituais, continuidade da revelação divina através dos líderes carismáticos, e uma parte deste movimento aceita a “teologia da prosperidade”. Analisemos o seu conceito sobre possessão demoníaca.

Exorcismo
O exorcismo exerce a função de extirpar o medo e o caos. Todos os males recebem um nome, uma origem: o demônio. O ministro ou pastor, dotado de força de Deus, expulsa o maligno e resolve o problema pela raiz.

A visão neopentecostal é tripartida. Separam o Cosmo em três dimensões: Céu, morada de Deus e de seus anjos; Terra, uma criação divina entregue aos seres humanos; Inferno, regiões inferiores destinadas a acolher as almas dos mortos e demônios. O mundo é a arena, onde se dá a luta entre Deus, satanás e seus anjos, essas disputas são conhecidas como batalhas espirituais.
Acreditam que o mal está personificado nos demônios. O que é notado nos hábitos de “amarração de demônios”, que se baseia na premissa de que os demônios estão soltos e podem entrar em animais, objetos, pessoas, principalmente no momento do culto. Esta é uma atividade constante nos movimentos neopentecostais, porque estão sempre escapando dos laços do exorcista. Por isso é preciso constantemente “colocar os demônios sob os pés”, “pisá-los com energia”, demonstrando-se assim o poderio do Senhor Jesus Cristo sobre as forças do mal. Em alguns templos da Comunidade Sara Nossa Terra, durante a celebração da eucaristia, as pessoas pisoteiam os copos plásticos que foram utilizados, para declararem publicamente a derrota dos demônios, que com este gesto são publicamente pisados e humilhados. Algum tempo atrás no templo da Comunidade Sara Nossa Terra em Passos, o pastor após o sermão e celebração da Eucaristia, e com uma bacia com água e um corante vermelho, orou e depois chamou os fiéis até altar para limpá-los com o sangue de Cristo.

Na visão neopentecostal os demônios são espíritos revoltados, porque na criação dos seres humanos, Deus teria deixado de dar a eles – espíritos puros – a predominância original que eles tinham; por isso os demônios se apoderam das pessoas, movidos de inveja, em uma feroz luta, com o objetivo de destruí-los de todas as maneiras possíveis. Uma das maneiras, comum entre IURD[4] e Comunidade Sara Nossa Terra, é através da hereditariedade, pois, há casos de demônios que perseguem várias gerações. Uma outra maneira, é que há pessoas que se tornam possessas ao participarem, diretamente ou não, de rituais espíritas, ou por terem sido alvo de trabalhos, despachos e bruxarias, ou até mesmo por passarem perto, de carro ou a pé, dos lugares que foram utilizados para este tipo de trabalho, ou macumba. Se a pessoa que passou perto deste local, não tem o Espírito Santo na sua vida, fatalmente terá maléficos resultados.

Há também uma corrente que disputa o tempo todo no momento de culto, com os poderes das trevas. E existem ainda, como é freqüente nos templos da IURD, os cultos de guerra cósmica ou batalha espiritual; são conhecidas como “correntes de fé” ou “campanhas”. Dessa maneira, cada milagre, conversão e exorcismo são pequenas amostras de decisivas vitórias de Deus contra as forças diabólicas.

As Igrejas neopentecostais se diferenciam das pentecostais nos rituais de exorcismo, porque os pastores neopentecostais fazem um tipo de entrevista com as entidades diabólicas. A eficiência do exorcismo depende da legitimidade de quem pratica o ato e da instituição ao qual está vinculado o exorcista, o que a IURD atribui para si a autenticidade do exorcismo.

Um outro objetivo do diabo é tornar seres humanos seus prisioneiros, e a ação da Igreja é oferecer tratamento espiritual, atuando como um pronto socorro espiritual. O ritual de exorcismo na IURD deve ser dirigido por pastores e obreiros cuja vida espiritual é supostamente exemplar, exigindo-se por isso mesmo, um longo preparo através de períodos longos de oração e jejum. As pessoas no auditório podem também participar através das suas orações, com declarações (queima Jesus; queima Jesus), com cânticos (sai, sai, sai, em nome de Jesus; ou, tá na hora, tá na hora do diabo ir embora) ou com ações que incluem o bater dos pés no chão, expressando que o diabo esta sendo pisado.

Refutação
Entendemos que estes rituais e atividades desenvolvidas nas Igrejas Neopentecostais são modismos e falta de ensinamento bíblico adequado. A respeito do exorcismo respondemos que, ao invés da pessoa buscar em métodos e rituais uma forma de libertação, ele primeiramente deveria buscar a Deus, todas as vezes que lhe ocorreram pensamentos, atos e atitudes contrárias à vontade Dele. No movimento neopentecostal há pouco, ou nenhum, espaço para os métodos antigos, como arrependimento, confissão e admissão da própria culpa, e uma vida em santificação. Tiago orienta ao crente resistir ao diabo (Tg 4.7). Não se resolve culpa pessoal com exorcismo, nem se substitui a responsabilidade individual por demonização. Estes movimentos privam o cristão de participar da única e verdadeira libertação do domínio do pecado em sua vida. O apóstolo Paulo sugere a mortificação da natureza pecaminosa como um exercício diário (Rm 6, 6; 8,13), e a solução para as obras da carne não é a expulsão de espíritos que supostamente escravizam os cristãos e incita-os a praticar estes pecados, mas é viver uma vida no Espírito (Gl 5, 16-26).

Pode um cristão ter demônios habitando seu corpo, o qual é igualmente habitado pelo Espírito Santo? A questão é realmente aguda, pois a Escritura ensina que o cristão está assentado com Cristo nos lugares celestiais, acima de todos os principados e potestades (Ef 1, 21-22). O cristão está em Cristo, e Cristo nada tem a ver com o maligno (Jo 14,30). E, naturalmente, o diabo não toca os que são de Cristo (1 Jo 5,18), pois o que está no cristão (Espírito Santo) é maior que os espíritos malignos que habitam este mundo (1 Jo 4,4).

O NT não diz absolutamente nada a respeito de cristãos que foram possuídos, e apenas descreve o encontro de Jesus e dos apóstolos com pessoas endemoninhadas, mas em nenhum caso revela como o endemoninhamento aconteceu, se foi causa de pecados pessoais, pelos pecados dos outros, por maldições hereditárias, ou qualquer outro dos motivos alegados pelos proponentes do movimento neopentecostal. Não devemos tentar satisfazer as nossas curiosidades baseadas em especulações e experiências pessoais. Cremos que é possível hoje um descrente ser de tal forma, oprimido e atacado por Satanás o ponto de ocorrer a possessão.
A pergunta 26 do Catecismo Menor diz:
Como exerce Cristo as funções de Rei?
Cristo exerce as funções de Rei sujeitando-nos a si mesmo, governando-nos e protegendo-nos, contendo e subjugando todos os seus e os nossos inimigos.

BIBLIOGRAFIA
1. CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, Templo e Mercado: organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. Petrópolis, R.J.: Vozes; São Paulo: Simpósio Editora e Universidade Metodista de São Paulo, 1997.
2. GONZALEZ, Justo L., A Era dos Novos Horizontes. São Paulo: Vida Nova, 1989.
3. _______________, A Era Inconclusa. São Paulo: Vida Nova, 1995.
4. LEITE FILHO, Tácito da Gama, Seitas Proféticas. Rio de Janeiro: Juerp, 1987.
5. ______________________, Seitas Neopentecostais. Rio de Janeiro: Juerp, 1991.
6. STOTT, John R. W. Crer é também pensar. São Paulo: ABU, 1994.
Notas:
[1] González, Vol.1, p.99. Márciom acreditava que o presente mundo era mau e, portanto, fora criado por um deus igualmente mau. Então, ele fez uma distinção entre o deus do A.T. (Jeová) e o Pai de Jesus Cristo do N.T. (Deus Supremo) superior a Jeová.
[2] González, vol.2, p.90, 91. Segundo Ário, Jesus havia sido criado por Deus, sendo, portanto, uma criatura. Mesmo sendo, no dizer de Ário, a principal criatura de Deus. o que estava em jogo era a divindade de Jesus.
[3] Tácito, Seitas Neopentecostais, p.31.
[4] Igreja Universal do Reino de Deus.

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